sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Autorretrato

Décadas atrás, ( não revelerai quantas! ) nesta mesma época, segunda semana de janeiro, mamãe me levava para tirar fotografias 3 x 4 para a matrícula na escola.
Os tempos eram outros, as matrículas eram feitas em janeiro e as aulas começavam somente lá no final de fevereiro, com um pouco de sorte com a data do carnaval, só em março colocávamos o uniforme.

Era preciso pegar ônibus pois em nosso bairro não havia nenhuma loja fotográfica.
Íamos até o bairro da Penha; exatamente na rua Penha de França onde se avizinhavam uma loja fotográfica ao lado da outra.
Parávamos primeiro em frente a vitrine. 
Era fascinante a vitrine das lojas fotográficas. Aqueles pôsteres enormes expostos, diversos modelos de álbuns fotográficos, máquinas, poucas porque não haviam muitos modelos e também filmes da kodak em suas caixinhas amarelas.

Mamãe entrava na loja segurando minha mão e perguntava quanto custava a foto 3 x 4. Já se podia escolher entre a colorida e preto e branco.
Preto e branco foi uma opção em anos consecutivos até o preço da colorida ficar com pouca diferença.
Isso da cor da foto nem importava.
Também não havia muita diferença entre uma loja e outra. Mamãe escolhia pela simpatia do retratista, geralmente o mesmo do ano anterior.
Muitos japoneses no ramo, mas quem nos atenderia tinha traços mais italianos. Talvez fosse a boina, talvez fosse espanhol. Nunca soube.

O estúdio fotográfico ficava nos fundos de qualquer uma daquelas lojas e ao passar por em curto corredor, meu coração disparava.
Havia o banquinho e ao redor deles os enormes guarda-chuvas prateados.
Em um cantinho, um móvel com espelho e escova de cabelo.
Sempre tive vontade de me pentear ali, mas mamãe era enérgica - não usa isso.
Tirava a minha própria escova de cabelo que lembrara de colocar na bolsa e me ajeitava, sem dar mais explicações.
O lugar era cheio de silêncio e luz.
Para mim era um momento muito tenso. Não podia mexer e tampouco piscar os olhos.
 ( até hoje penso se alguém saiu com os olhos fechados no 3 x 4 analógico )

Ficava pronto em dois dias. Ninguém reclamava. Era assim para todo mundo.
Já fora da loja mamãe me explicava sobre não poder usar a escova de cabelos da loja de fotografias.
Piolho. Para mim uma resposta sem a minha total comprensão. Nunca tinha tido um piolho. Não havia google para me mostrar um 3 x 4 dele.

Dois dias depois fazíamos o mesmo trajeto para ir buscar a fotografia e aproveitar para fazer a matrícula.
Entrávamos na loja segurando o papel carimbado de "pago"e dentro de mim uma euforia que minha mãe conseguia conter somente com o olhar dela. Eu teria ficado bonita no retrato?
Ela me mostrava rapidamente enquanto perguntava o preço daquele pôster exposto na vitrine.
Sempre acima das possibilidades.

Todo ano era a mesma coisa. A mudança foi quando pude fazer a foto colorida.
Não me lembro ao certo, mas houve um ano em que não precisei fazer as fotos 3 x 4; no seguinte já havia uma certa pressa no tempo e encontramos uma cabine com fotos que "sai na hora". Além de pequeno, o espaço era escuro e não havia escova de cabelo fosse com ou sem piolho, muito menos guarda chuva prateado. A foto não ficara boa. Isso nem importava, era só uma foto. Ano que vem fazia-se outra. Não podia é perder o prazo da matrícula. Agora as aulas já começavam no início de fevereiro. Já havia pressa por tudo.

Quando já maior fui fazer um passeio pelas ladeiras e ruelas da Penha senti uma tristeza analógica. Já não havia nenhuma loja fotográfica com suas vitrines.
Para onde teriam ido os irmãos fotógrafos e  sócios Takei e Takashi?
Na grande loja do senhor de boina, a grande novidade do consumo, uma grande loja de 1,99.

Três trilhões de fotografias serão tiradas neste ano de 2014.
Senti um pouco de saudade da minha meia dúzia na capinha vermelha.

10 comentários:

CamomilaRosaeAlecrim disse...

Menina...eu guardo fotos 3x4 das pessoas na capinha até hoje...adoro pedir para guardar de recordação na carteira! Nem me lembrava disso, hahaha...quantas histórias não é!
Tenho fotos 3x4 de quase todos os parentes e amigos, hhahaha! E tem mais, na década de 90 namorei com um Takashi, hahahaha, sério, mas acho que não é o mesmo! Ótimas lembranças e histórias, adoro!
Beijos
CamomilaRosa

Ana Bailune disse...

Boa tarde. Linda crônica! Você me fez lembrar desses tempos de retratos 3X4 (que eu também tirava, mas nunca ficavam bons...).

✿ chica disse...

Que lindas tuas lembranças.Lembro =bem delas e dessas capinhas vermelhas onde a meia dúzia era entregue.Lindo sempre! beijos praianos,chica

Nina disse...

Enquanto lia e ia lembrando. Obrigada por isso.

Sao enderecos diferentes,apenas. Maes. Todas iguais. Igualzinhas. Ai que saudade...
Era tudo tudo igualzinho. So nao tinha o espalhol, ou era italiano?

Qd vejo que na minha maquina tem dez fotos com um pequena diferenca, me dá uma raiva! sempre lembro das maquinas com filme (que ainda temos mts aqui em casa e usamos mt ainda). A gente tinha tanto cuidado na hora de fotografar, hj fazemos 10 fotos de repente e ninguem para pra olhar :-(

3 trilhoes? Jesus! o que é esse numero???

Marli Soares Borges disse...

Querida Ana Paula. Amei o texto, superrecordações. Outros tempos, é verdade. Ainda tenho as fotinhos 3x4 e as capinhas. Tudo muito bem guardado e organizado para a história da família. Sou o repositório das fotos. Faz uns vinte anos que decidi organizar minhas fotos e não me arrependi. Aí as pessoas da família gostaram da ideia e começaram a me ceder algumas fotos e fui organizando. Às vezes os netos me pedem para ver, os sobrinhos, etc, querem "comparar" as caras com os filhos ou com eles próprios. (Hoje em dia as fotos ficaram tão banais.) Bjs amiga.

Pandora disse...

E eu senti nostalgia por um tempo que não vivi!!!

Bia Hain disse...

Ah, Ana, que saudade me deu seu post! Descreveu tão bem o cenário e o roteiro das fotos 3x4 que eu nem preciso acrescentar muita coisa. Também sempre achava lindos os pôsteres que vendiam. Na loja onde eu costumava tirar foto eles adequaram o espaço e os produtos, mais modernos, e continua atraindo público. Mas a pressa, essa não costuma retroceder. Um abraço!

Felisberto Junior disse...

Olá!Boa noite, Ana Paula!
Bela crônica...
...passava bastante na Amador Bueno, quando ia para a casa do meu irmão,em Itaquera!
E esse meu irmão, me mostrou outro dia ( não revelarei quando) umas fotos 3 x 4 dele , com uma capinha verde,outra em "binóculos" vermelhos. Além do piolho nos pentes, para as fotos de documentos oficiais , paletó com gravata, prontinho para ser usado.
Tantos detalhes para tirar uma foto e hoje fazemos selfie toda hora...penso até que é por isso que se dava mais valor à tudo, antes!
agradeço pelo carinho,obrigado, belo domingo, beijos!

Tina Bau Couto disse...

AMO fotografias
Minhas, dos meus, dos outros...
Ver, rever, tirar, ser fotografada, fotografas lugares, coisas
Revelar, fazer álbuns, dar Para mim fotos de presente...
Fotografia registram instantes, pessoas, modas, costumes, lugares, sentimentos, são imagens, poesia, sensações que vão além do que está ali estático, que ficam para posteridade.

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, que gostoso ler isso. Fica mais nostálgico porque me lembro da Penha de França.
Uma coisa impressionante era a qualidade do papel fotográfico. Tenho ainda fotos de meus avós em perfeito estado.
Adorei esses "recuerdos".
Beijo,
Manoel