terça-feira, 15 de maio de 2012

Sem título

Você quer se sentar aqui ao meu lado para ouvir uma história?
Não olharei nos teus olhos. Também não sei onde meu olhar estará. Não importa. Eu apreciarei tua presença ao meu lado.


Sabe, às vezes eu acho que nós conhecemos todas as histórias do mundo. Tudo já foi falado, escrito, filmado, fotografado, postado... de alguma forma, tudo já foi ouvido. Acabou a originalidade. Vivemos uma repetição.
Vivemos uma repetição quando nossa alma se ausenta.
Quando você ouve uma história desabitado de si mesmo, da sua alma.


Numa estação do ano, que eu não me lembro qual, eu habitei uma história.
Vou colocar após os dois pontos algumas palavras deste contexto: uma garota de 14 anos, o caminho da escola, um estupro, uma gravidez, gente rica.
Ela chegou na maternidade pela manhã, trazendo numa linda maleta o enxoval do bebê menino e aquelas palavras do parágrafo acima.
Eu vi quando a garota abriu a maleta a pedido da mãe para me mostrar as peças bordadas e entregar a primeira roupinha a ser vestida pelo bebê.
Não me lembro se as palavras estavam misturadas às roupinhas ou se estavam guardadas num cantinho.
O sorriso da garota era frio. Talvez fosse o momento da cesariana se aproximando.
A decisão da justiça saiu no quinto mês e meio de gestação. Decidiram ter o bebê. Um bebê sem pai, frisou fortemente a avó. E a partir dessa decisão seria um bebê amado, muito amado - mãe, avó e avô eram o núcleo mais próximo. O estuprador estava preso. E eles trancafiaram também o passado até o tamanho da barriga de cinco meses.
Nunca, eu saberei qual tempo de espera foi maior. Antes da sentença ou depois dela?
Desejei um fique tranquila e segui pelos corredores carregando num dos braços uma pequenina peça de roupa, no outro, a maleta. Também não me lembro se estava mais leve ou não do que quando chegou.
Por favor, ali onde eu disse "após os dois pontos algumas palavras",  acrescente a palavra esperança.


Este texto faz parte da blogagem coletiva  Amor aos Pedaços.


16 comentários:

Lalique disse...

ola minha amiga
visit from Turkey

bom dia

http://laracroft3.skynetblogs.be http://lunatic.skynetblogs.be

✿ chica disse...

Sensacional, emocionante tua participação,Ana Paula!! E que essa esperança nunca tenha faltado àquela família e que esteja sempre conosco... beijos,chica

Ivani disse...

A minha esperança hoje é de que essas duas crianças tenham sido realmente muito felizes.
Esses fatos, como voce mesmo frisou, tornaram-se parte do cotidiano, portanto já não nos importamos tanto.
Mas quando contado assim, de maneira emocionada e poética, criam outra dimensão.
É um drama, convenhamos.
Assumir o bebê foi um ato de muita coragem, e aquela menina sofreu o que nós, mulheres "normais" nem sequer imaginamos.
Lindo testemunho o seu, parabéns, um beijo.

Marly Bastos disse...

O teu texto tem a dimensão de todos os temores, a revolta, o medo e a incerteza de quanto será amado um filho fruto do estupro. Resta a esperança para que o coração da mãe se abra para amar um ser que lhe foi imposto Já que a justiça tardou.
Um texto para se refletir. Sensacional.
Beijokas doces

Mirys + Guigo + Nina disse...

Que lindo, Ana!!!!
Tocante, simples, contundente!

Bjos e bençãos.
Mirys
www.diariodos3mosqueteiros.blogspot.com

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, uma atitude linda e responsável. A criança não tem culpa da situação em que foi gerada. Vai sempre ser muito feliz e muito amada. O mais importante para isso foi e está sendo a esperança.
Postagem maravilhosa, amiga querida.
Beijo
Manoel.

lis disse...

Triste e fiel.
Uma menina, talvez outra menina a caminho,uma atitude, a esperança.
Bem escrita, fácil e gostosa de ler AnaPaula
Bela participação.
abraço

*admiro muitos os participantes das blogagens coletivas, até já participei e hoje meu tempo ficou menor , nao saberia, sempre dá um bloqueio incrível rs
parabéns por se encorajar e faze-lo tão bem.

Lacorrilha disse...

Fiquei sem palavras.

Cris Martins disse...

Ain Ana, vc sempre me emocionando ne!
agora me diga, qtos casos assim naum tem por ai diariamente... é mto triste..

ADOREI sua participação tb!!

bjao

Vítor Fernandes disse...

Nunca estão todas as histórias contadas. E esta prova isso. E bem contada.

Anne Lieri disse...

Ana Paula,um texto que emociona de tào lindo!Ficou bastante original tb!Bjs e meu carinho,

Orvalho do Céu disse...

Olá, Ana Paula querida
"O que me importa o tempo e o espaço,
Se trilhei caminhos orvalhados
Em busca do calor do teu abraço?"
(Auxiliadora)

Mesmo que ele não estivesse preso... a Esperança o ia acorrentar... e impedir que a outra parte ficasse desesperançosa... digo por experiencia própria também...
Perfeito exemplo do Tema!!!


Concedei-lhe, ó Deus, prodigamente, o ORVALHO DO CÉU...
Até o próximo mês, se Deus quiser!!!
Abraços esperançosos de paz

"Jamais desista de ser feliz, pois a vida é um espetáculo
imperdível, ainda que se apresentem dezenas
de fatores a demonstrarem o contrário."
Fernando Pessoa.

RUTE disse...

Oi Ana Paula,
convém mesmo colocar alguma esperança antes dos 2 pontos já que é cesariana e já que é a situação que é.

Muito bom seu conto. Me prendeu ao ecran. E depois andei para cima e para baixo, para colocar a Esperança no sitio certo (risos).
Super original. Muita informação nas entrelinhas.
Beijinhos.
Rute

Luma Rosa disse...

Que triste!! Mas ainda bem ela tinha quem a apoiasse. Penso em quantas meninas são expulsa de casa quando engravidam. As vezes as famílias são cruéis.
Mas não podemos perder as esperanças! Ela é o combustível da vida!
Quem perde a esperança perde o sentido de sua vida; sem esperança viver não tem graça. A Esperança é a vacina contra o desânimo e contra a possibilidade de invasão do egoísmo, porque apoiados nela nos dedicamos à fazer sempre melhor. A perda da esperança endurece nossos sentimentos, enfraquece nossos relacionamentos, deixa a vida cinza, faz a vida perder parte do seu sabor. Ninguém vive se não espera por algo bom, que seja bem melhor do que o que já conhece, já possui ou já experimentou.
Ana Paula, obrigada por participar da coletiva!
Beijus,

Roseli Pedroso disse...

Ana que texto lindo! Sua forma de escrever é muito prazerosa menina. Linda, triste e cheia de esperança. Valeu!
Bjs

Maria Luiza disse...

Adorei este seu estilo de escrever. Muito bacana e ainda bem que a sensatez falou mais alto ao coração desses avós e existirá mais um ser amado protegido e amparado! Também participei. Grande abraço!